Tenho cá para mim que a Política e o Jornalismo, como eventualmente o Desporto, são actividades que reflectem, genericamente a sociedade em que se inserem. Em Portugal, três décadas depois da Revolução de Abril e quase duas desde a adesão à União Europeia [então Comunidade Económica Europeia], continuamos a ter uma sociedade grandemente atrofiada por determinados, digamos, problemas e afectada por carências e deficiências de vária ordem. Por exemplo, sem cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres, responsáveis e críticos, dificlmente teremos uma classe política competente ou um jornalismo eficaz.
Vem todo este, longo, palavreado para ilustrar duas situações recentes com as quais me cruzei acidentalmente na supostamente nossa RTP, situações que ilustram uma certa forma displicente de fazer jornalismo e que só continuam a acontecer com regularidade porque temos uma larga faixa da população com confrangedores níveis de literacia.
A primeira aconteceu há alguns dias - na manhã do encerramento do tunel do Rossio. Antes das 8 horas antes de sair de casa, vejo um jovem aprendiz de reporter na estação de Campolide a tentar entrevistar passageiros da linha de Sintra sobre os incovenientes e incómodos que a situação lhes causava. Teve azar o rapaz porque as duas pessoas com as quais falar conseguiu não eram clientes habituais daquela linha. Mesmo assim, o hábil moço lá conseguiu convencer um dos entrevistados a dizer que sim senhor aquilo era uma chatice e um enorme incómodo para os passageiros da CP. Ou seja, em vez de se limitar a reportar, o reporter forçou o passageiro a dizer o que convinha à reportagem.
A segunda situação aconteceu hoje à hora do almoço a propósito da torre da igreja matriz de Penamacor que se encontra inclinada. Passando por cima da abusiva comparação com uma famosa torre italiana, o suposto jornalista que escreveu a peça resolver concluir a mesma afirmando qualquer coisa como "já que a ciência não consegue explicar o fenómeno [de a torre estar inclinada e não cair], então deve ser mesmo a mão de Deus a segurá-la". Tudo muito bem, não fosse o pequeno pormenor de na peça não se ter vislumbrado a mais ténue tentativa de encontrar uma explicação cientifica. Os únicos entrevistados foram uma idosa, uma transeunte e o padre local. Entretanto ignoro se a mão de Deus que tão diligentemente segura a torre de Penamacor é a mesma que há uns anos deu um golo à selecção Argentina de futebol.