sábado, novembro 15, 2003

Horror

É demencial. Não há palavras que consigam dizer o horror
Vi um pobre homem agarrado ao que restava da sua mulher
Errando pela baixa
Os olhos fixos num horizonte perdido
Sem uma palavra. Sem um som
Arrastando a carcaça desfigurada por entre o trânsito do fim da tarde
Passei sem conseguir dizer nada

Ninguém dizia nada. O silêncio
Acompanhava o olhar vazio. A dor

A vaguear por entre as ruínas e o trânsito do fim da tarde
As pessoas apressavam-se por causa do cair da noite
E o pobre homem seguia um destino sem rumo
Arrastando o seu cadáver
E o pobre homem
Seguia um destino sem rumo
Arrastando o seu cadáver

Ninguém dizia nada. O silêncio
Acompanhava o olhar vazio. A dor


Mão Morta, Arrastando o seu cadáver in Primavera de Destroços

sexta-feira, novembro 14, 2003

Ainda a propósito do mundo mais seguro

Apesar dos estilo inflamado (que parece desagradar a algumas bem-pensantes cabeças lusas...), não fazia mal que se lesse com atenção o que Miguel Sousa Tavares escreve no Público de hoje sobre o Iraque.
O mundo é hoje um local mais seguro

Maria João Ruela (SIC) foi baleada numa perna e Carlos Raleiras (TSF) desapareceu na sequência de um ataque à coluna de jipes em que seguiam quando tentavam chegar a Bassorá, no Iraque. Mais dois jornalistas, desta vez portugueses, vítimas da violência que assola o território "libertado" pelos Estados Unidos e Reino Unido (com o alegre apoio de Aznar e Durão).
Claro que atacar uma coluna de jornalistas, desarmados, e sem protecção militar é um acto cobarde. Provavelmente os jornalistas portugueses terão sido imprudentes. Obviamente, todos os jornalistas sabiam os riscos que corriam e ninguém lhes apontou uma pistola à cabeça para os forçar a viajar para o Iraque. Mas a verdade é que, ao contrário do que nos tentam levar a pensar, nem a guerra acabou, nem o mundo é um local mais seguro e o Iraque parece ser hoje um local mais perigoso do que o era durante a invasão americana. Que o digam a Maria João e o Carlos (e que eles me perdoem a familiaridade). E que regressem sãos e salvos.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Pensar

Jacques Derrida, um dos mais extraordinários pensadores contemporâneos, vai estar em Coimbra para o Colóquio Internacional A Soberania (17 a 20 de Novembro) integrado na programação da Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003. Às vezes vêm boas notícias das margens do Mondego.
Comigo não
A Provedoria-Geral da Justiça, pela voz de Nascimento Rodrigues, fez saber que propôs mais de 9 centenas de alterações ao funcionamento dos estabelecimentos prisonais portugueses, entre as quais a criação de salas de chuto e de um programa de trocas de seringas. Estas propostas, sensatas, derivam do elevado número de reclusos toxicodependentes (ou não) que sofrem de doenças como a hepatite (B e C) ou infectados com o VIH (vírus da SIDA). A ministra da Justiça, Celeste Cardona, reagiu prontamente: "Comigo não!" , acrescentando uma série de generalidades sobre o humanismo e os princípios pelos quais se rege o sistema prisional português e mais não sei o quê. Entretanto, devido às precárias condições de higiene das nossas prisões, seres humanos vão continuar a sofrer e, um dia, quando tiverem cumprido a sua pena, vão sair das prisões infectados (e provavelmente infectar outras pessoas) com hepatite e VIH. Tudo graças ao humanismo e aos princípios da senhora ministra.

terça-feira, novembro 11, 2003

Azul

Hoje o dia está demasiado azul e não me apetece. Espreitem por uma janela. Ou vão para esta travessa, conversar, que elas gostam. Ou passeiem de automóvel. Ou comam um jaquinzinho, talvez um queijo. Ou procurem qualquer outra coisa que fazer. Ou então, nada; silêncio. Até amanhã.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Resistente (3)

Manuel Monteiro, velho resistente da política portuguesa, foi (surpreendentemente...) eleito líder do Partido da Nova Democracia, o partido que não tem suspeitos de pedófilia (graças a Deus). Que Deus nos ajude...
Resistente (2)

"A mão do ministro Bagão Félix persegue-o [a Ferro Rodrigues] através de sucessivos inquéritos." Estas palavras são de Francisco Louçã, líder da esquerda-caviar. Disse-as aos microfones da Rádio Renascença e são publicadas no Público de hoje. Nem sei que diga. E apesar dessa perseguição, Ferro resiste. Talvez seja do seu (já famoso) cão. Porém, Ferro que se cuide: cá para mim, Louçã prepara-se para assaltar a liderança do PS.
Resistente

Álvaro Cunhal faz hoje anos. Parabéns. Apesar de tudo (que é muito) devemos-lhe alguma coisa pelos anos de luta contra o senhor de Santa Comba Dão.
O fim de semana

TGV

Em muitos cafés, restaurantes, snack bares, tabernas, bares e discotecas do país, muitos portugueses (e uns quantos estrangeiros) ingeriram grandes quantidades de bebidas alcoólicas, particularmente cerveja e shots. Ao que soubemos, houve um shot em particular que foi consumido com especial dedicação. Trata-se do famoso TGV, mistura explosiva capaz de levantar mortos do chão.

Portugal a arder

Apesar da muita chuva que se abateu sobre o território nacional, o país continua ao rubro devido aos incêndios florestais do Verão passado. Ontem, em todas as capitais de distrito, centenas de bombeiros manifestaram-se silenciosamente à porta dos respectivos governos civis em protesto contra as declarações de Sevinate Pinto (ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas). Na passada terça-feira, Sevinate Pinto afirmou perante a Comissão Parlamentar Eventual de Incêndios Florestais (que bela designação...) que "em Portugal não se sabe atacar fogos florestais." O governador civil de Viseu também se pronunciou sobre a (ausência de) capacidade nacional de combate aos fogos florestais afirmando que "os bombeiros não têm formação para apagar incêndios nem para dirigir operações." Por acaso, até concordo com ambos, o que não significa que não admire profundamente o espírito de sacrifício dos bombeiros portugueses. O problema não é esse. O problema é que, tendo em conta a dimensão florestal do país, deveríamos ter, há muitos anos, corpos de bombeiros profissionais, especializados e bem treinados. E se não temos, a culpa não é certamente dos milhares de homens e mulheres que sacrificam tudo, por vezes a própria vida, para defender uma das nossas maiores riquezas.

Castigos

Chegaram-me ecos de um "castigo" que Pinto da Costa terá aplicado a Mota Amaral. O presidente da Assembleia da República não vai ser convidado para a inauguração do Estádio do Dragão (que raio de nome...), mais um dos estádios do Euro 2004, porque o senhor Pinto da Costa não gostou de umas coisas que Amaral andou a fazer (e presumo a dizer). No lugar de Pinto da Costa, teria muito cuidado com os correctivos aplicados a Mota Amaral. Atendendo às enorme devoção e excelentes relações que o simpático açoreano tem com o Todo-Poderoso, não me admirava nada que o FêCêPê viesse a sofrer a ira divina. E notem bem: ontem o clube de Pinto da Costa, actual campeão nacional, detentor da Taça e Supertaça de Portugal e Taça UEFA, não ganhou ao Moreirense, modesto clube de Moreira de... Cónegos.
Jorge Sampaio e Durão Barroso parece que também não vão à inauguração (devido à cimeira ibero-americana, ao que consta).

Meter água

Ontem o caos instalou-se em Alverca devido à chuva. Estranhamente, o SLB foi a Alverca derrotar a equipa local por 3-0 e sem meter a água do costume... E a Briosa ganhou! Dois secos ao Marítimo, na Madeira. Alberto João eat your heart out!

Figueira da Foz (private joke)

É uma cidade simpática, a Figueira da Foz, apesar de, por vezes, mal frequentada... Hei-de lá ir um dia destes...

quinta-feira, novembro 06, 2003

As saudades que nós já tinhamos - parte 2

... desse velho amigo do Paulinho das Feiras, dos tempos em que Paulinho não cirandava de feira em feira; dos tempos em que Paulinho dirigia o PP (sem CDS) da sombra (ainda que que profusamente iluminada...). Falamos de Manuel Monteiro. O homem regressou da sua - toma lá lugar-comum! - travessia do deserto e no próximo fim de semana será, por certo, aclamado como salvador da Pátria (e de Deus, da Família, da Autoridade e, já-agora-porque-não-?, do Benfica) no congresso fundador do Partido da Nova Democracia (o tal partido que não tem suspeitos de pedofilia, como o senhor Manuel muito bem fez notar aqui há uns tempos...). Graças a Deus...
As saudades que nós já tinhamos

... do nosso estimável Paulinho das Feiras. À hora de jantar surgiu, feliz e contente, nos telejornais (pelo menos naquele em que tropecei) a vociferar na direcção da oposição que nas próximas eleições lá estará ele, de feira em feira, a comparar os recibos das pensões de agora (agora = governo PPD/PSD - CDS/PP) com os recibos das pensões de antigamente (antigamente = governo PS). Seja bem regressado, Paulinho. A alta política nacional precisava da sua inestimável contribuição. Graças a Deus...
É preciso que algo (ou alguém) mude...

... para que tudo fique na mesma. Desculpem-me o pessimismo, mas não tenho grandes esperanças quanto ao futuro das estradas nacionais. Este post vem a propósito da nomeação de José Rosado Catarino para a presidência do Instituto de Estradas de Portugal. Oxalá me engane...
What is the matrix?... (an afternoon at the cinema)

Ainda estou a tentar digerir o (suposto?) capítulo final da trilogia (será?) The Matrix. Para já não estou nada convencido quanto à qualidade da obra. É que mirabolantes efeitos especiais não são tudo num filme. Convém que os efeitos sejam colocados ao serviço de, por exemplo, um sólido argumento.

quarta-feira, novembro 05, 2003

As propostas do senhor reitor - parte 2

Ainda gostava de saber porque abandonaram, ainda que temporariamente, a sala os representantes dos estudantes... Terão ido concertar estratégias? Telefonar para Lisboa indagando junto de Vítor Hugo Salgado o que fazer? Ver algum directo da manifestação de estudantes em Lisboa? Ou apenas fazer um xixizinho? Que diabo! Se fazem parte do Senado porque saiem assim das salas onde decorrem reuniões com assuntos importantes a tratar?!
As propostas do senhor reitor

O Senado da Universidade de Coimbra aprovou "democraticamente" uma proposta do reitor daquela instituição fixando o valor das propinas. Finalmente dirão alguns. O reitor até afirmou aos jornalistas que lhe compete "mostrar a todo o país que a Universidade de Coimbra funciona." Aparentemente sim, senhor reitor. Só há um pequeno pormenor nesta história: o Senado aprovou a proposta do senhor reitor aproveitando a ausência temporária dos representantes dos estudantes. Ou muito me engano ou o senhor reitor e o Senado da vetusta instituição coimbrã não deviam ter feito o que fizeram...
Mãos largas

O que é que se está a passar com o Governo da Nação?! De súbito, anunciam a atribuição de mais bolsas de estudo para estudantes universitários (5 715) "para que ninguém fique de fora da universidade por questões financeiras" (diz a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Graça Carvalho). Ontem anunciaram o aumento das pensões de reforma. Amanhã, o que será?
A propósito das bolsas de estudo: este anúncio da senhora ministra (de cuja existência ainda ninguém se havia apercebido - nem sequer os seus colegas de Governo, dizem as más línguas...) não terá nada a ver com isto, pois não? Não é por nada, mas é que tanta gente a gritar em frente ao Parlamento não fica nada bem na abertura dos telejornais da noite...
Estreias mundiais

Imagino que já ande por aí muito boa gente excitadíssima com a estreia mundial de Matrix Revolutions, terceiro e (presume-se) último capítulo da saga de Neo e companheiros na luta contra as Máquinas. Optei por Kill Bill, em sessão a meio da tarde... [Pois, só agora...] Grande Quentin Tarantino. Grande Uma Thurman.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Preguiça

Gosto da preguiça e de ser preguiçoso. Gosto do fim-de-semana (e a Briosa até ganhou!). Por isso continuo de fim-de-semana até amanhã. Até há música nova para rodar no leitor de CD's.
Até amanhã. Log off.

sexta-feira, outubro 31, 2003

Prioridades nacionais

Afazeres profissionais só me permitiram ver um dos noticiários televisivos da hora de almoço (e apenas a repetição que vai para o ar a meio da tarde no Canal 2), o da RTP 1, a televisão pública portuguesa, para que fique claro... O grande tema deste noticiário não foi a Casa Pia, nem a crise económica, nem o Orçamento de Estado, nem a nova data para a leitura da sentença do caso Moderna, nem sequer os temporais que se abatem sobre Portugal desde ontem, muito menos a nova aparição de Fátima (a de Felgueiras) ou imagem de Nossa Senhora de Fátima que verte lágrimas (de cera!)... Não senhor. O grande tema do telejornal do canal do Estado (e, pelo menos, três directos) foi o Benfica e as eleições para os respectivos orgãos sociais que têm hoje lugar. Prioridades nacionais, pois claro...